O
imaginário ilhéu é ainda povoado por criaturas fantásticas,
entre as quais destacam-se as bruxas. Estórias com bruxas
são difundidas no mundo inteiro inseridas dentro de contos
como Branca de Neve e os Sete Anões, João e Maria, e outros
mundialmente conhecidos. Na Ilha de Santa Catarina em meio
ao trabalho, eram frequentes as cantorias e os causos contados
de pai para filho, sendo os preferidos aqueles aterrorizantes
de arrepiar os cabelos, capazes de provocar grande pavor.
Daí surgiam mistérios provocados por seres fantásticos,
tais como as bruxas, lobisomens, vampiros, anjo Lúcifer
e demônios e acrescidos ainda de mitos indígenas do boitatá,
boiguaçu, iara, curupira, saci-pererê e caipora etc…Mitos
que alimentavam o cotidiano de um povo, traduzindo sua maneira
de pensar, amar, sofrer.
As
causos de bruxas e suas estripulias eram muito conhecidas
e temidos em toda a Ilha incluindo a Lagoa, portanto, vamos
conhecer um pouco mais dessas criaturas que ainda alimentam
nosso imaginário fantástico.
Algumas
informações úteis sobre as bruxas:
"Quando
de um casal nascem sete filhas, sem nenhum varão de permeio,
fatalmente a primeira ou a última será bruxa. Para que isso
não aconteça, a irmã mais velha deve batizar a mais nova.
Com freqüência são apontadas como bruxas mulheres magras,
feias e antipáticas. Elas têm pacto com o diabo, lançam
"Mals-olhados" e acarretam enfermidades com seus bruxedos.
Possuem o hábito de chupar o sangue das crianças, e mesmo
de adultos, e transformam-se em mariposas para entrar nas
casas pelo buraco da fechadura. As crianças ainda não batizadas
são preferencialmente atacadas, por isso devem dormir com
a luz do quarto acesa. Para descobrir a bruxa que chupa
o sangue de alguém, deve-se socar num pilão uma camisa da
criança ou do adulto atacado e "ela logo aparece". Também,
quando uma mulher dá a apertar a mão canhota é sinal de
que é bruxa."
FRANKLIN
CASCAES -
"Franklin
Joaquim Cascaes nasceu na localidade de Itaguaçu, quando
ainda pertencia ao município de São José "da Terra Firme",
em 16 de outubro de 1908. Faleceu na Ilha de Santa Catarina,
terra tão venerada por ele, no dia 15 de Março de 1983.
O
grande acervo deixado por ele dá-nos a certeza de que ele
foi um dos maiores defensores da tradição popular ilhoa.
Na sua paciente pesquisa, desenvolvida ao longo de trinta
anos, conseguiu salvar a memória da cultura popular da Ilha
de Santa Catarina.
"
Para entender melhor o modo de vida das bruxas segue um
conto extraído do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina"
de Franklin Cascaes:
Velha
Bruxa Chefe "Cada bruxa chefe do bando de uma comunidade
recebe ordens diretas das mãos rubras do ex-anjo Lúcifer
para transmití-las às suas subordinadas através de um vidro
de unto sem sal e de um novelo bruxólico que elas só passam
a outra bruxa através de uma eleição bruxólica quando sentem
os passos indesejáveis da madame Morte perto do fim dos
dias de sua vida aqui na Terra. Elas presidem as reuniões
semanais bruxólicas nas sextas-feiras após a hora do Ângelus
- 18 horas do dia - dentro de grutas de pedras, debaixo
e por riba de frondosas figueiras, dentro de casas mal-assombradas,
desocupadas e, também, dentro dos ranchos de pescaria e
de estrebarias, com todas as filiadas do seu bando comunitário.
Diz a secular madame Estória que elas são tão ousadas nas
suas atitudes demoníacas, que os pescadores não podem esquecer
suas camisas e ceroulas dentro dos ranchos, pro mó de que
elas as crivam de nós indesatáveis, somente para ouví-los
xingá-las.
Nas
reuniões bruxólicas semanais que, também, se realizam em
encruzilhadas e caminhos tortuosos, elas tratam com suas
filiadas, entre muitos problemas bruxólicos, os principais,
que são: técnicas físicas corpóreas que a ciência cabocla
popular lhes garante para a metamorfose; as defesas ágeis
e prontas contra as benzedeiras, suas benzeduras e ardilosas
armadilhas para apanhá-las e, além de tudo, a correção absoluta
para pronunciarem as palavras do encanto no exato momento
do pedido de metamorfose.
E
continua a madame Estória: não se deve plantar figueiras
perto de casa, pro mó de que, se elas levam suas raiz para
debaixo dos alicerces, provocam atrasamento na vida física
e monetária das pessoas que moram nela. Também não se deve
passar por riba de raízes de figueira, que dá azar, pro
mó de que as copadas delas são os lugares preferidos por
mulheres bruxas para dançarem seus bailes luciferianos em
chamas ardentes, após as jornadas bruxólicas que encetam
dentro da noite em verdadeiras orgias fadóricas nas suas
comunidades no além-mar e no além-espaço sideral.
Nos
congressos bruxólicos realizados nos salões rubros inferneiros,
que são presididos, satanicamente, pelo ex-anjo Lúcifer,
só comparecem as velhas bruxas chefes de bandos comunitários.
As leis são ditadas para elas cumprirem com rigor prioritário
absoluto e no prazo marcado.
Qualquer
descuido dos deveres bruxólicos impostos pelo chefe capeta,
a infratora não tem direito a nenhuma defesa judicial inferneira
e imediatamente é conduzida para os porões dos fornos dos
infernos pelos soldados demoníacos e incinerada imediatamente
para os séculos sem fim estóricos. As chefes de bando não
residem com suas filiadas, nem com boitatás, lobisomens,
sacis, curupiras, caiporas e outros.
Desde
o princípio dos séculos históricos, elas sempre gozaram
dos mesmos direitos da metamorfose deles, garantidos pelas
leis reais absolutas do rei Satã e da rainha Satoa. A imaginação
popular ilhoa afirmava existir no morro do Pau da Bandera,
do Antão, da Cruz do início do século e, hoje, da Televisão,
um túnel que tinha sua entrada lá no morro citado e alcançava
de Nossa Senhora do Desterro. Como dizem, atualmente, está
ele abandonado: esta velha bruxa metamorfoseou-se de urubu,
apossou-se de tal túnel imaginário e foi lá residir.
Acredito até que já requereu usucapião bruxólico do túnel,
para tornar-se sua legítima dona e ali levar a efeito as
suas famosas reuniões com suas filiadas nas sextas-feiras,
sem ganharem o perigo de serem televisionadas ou entrevistadaspelos
repórteres que trabalham lá com relação às suas atividades
em pelejas futebolísticas espaciais bruxólicas."
F.J.Cascaes
- 26/09/1975
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